Crianças – Frankstein
O Mágico de Oz perdeu o encanto. Alice anda sozinha no país das maravilhas. A boneca Emília está carcomida pelas traças e a Cuca não espanta mais ninguém.
A infância que outrora aprendeu a valorizar os personagens, ambientes fabulosos e metáforas imaginativas da literatura, está cada vez mais envolvida pelas diretrizes do universo corporativo dos adultos. As crianças não têm mais tempo para viver a condição que sua idade lhes coloca, devido à ação devastatória dos próprios pais, das escolas, e das exigências da sociedade capitalista, que inculcam na infância determinadas práticas capazes de transformá-la numa fase da vida em que se gestam pequenos predadores sociais.
Crianças nascidas nos estratos economicamente privilegiados deixaram de ser crianças para se tornarem projetos futuros de denominação e exercitarem suas práticas de competitividade com o impulso da família e do sistema educacional. Há crianças que não sabem mais o que é brincar ou deixar-se tomar pelo enlevo do lúdico e da imaginação, pois estão absorvidas pelo excesso de preocupação dos pais em relação ao sucesso futuro de seus filhos. Essas crianças não apenas se amoldam a uma estrutura que lhes cobra níveis humanos de excelência e eficiência, como também devolvem para o mundo à sua volta os preceitos éticos com que são alimentadas. Muitas delas, são depositárias das experiências fracassadas dos pais.
Não é incomum vermos crianças que espelham a rotina dos pais, sendo obrigadas, além de ir à escola, a participar de uma infinita carga de atividades para compensar a permanente defasagem que os pais julgam que esta recaindo sobre elas. Isso, talvez, explique o que muitos especialistas já estão cansados de afirmar, quando se referem aos transtornos de ordem psicológica e de aprendizagem cada vez mais freqüente no universo infantil.
A infância precisa voltar a ser infância. Voluntária ou involuntariamente, ao abrirem mão de uma formação mais humanizada para seus filhos, os pais estão ajudando a constituir sujeitos supérfluos, banais e previsíveis, rendidos à dissimulação do universo adulto, cujo preceito mais evidente é garantir às crianças um futuro promissor, burlando os contextos e as práticas próprias da infância em prol de uma imbecil competitividade ensinada em best-sellers como Pai Rico, Pai Pobre, cartilhas escritas por malandros que as escolas, por exemplo, insistem em sustentar, pagando-lhes altos cachês por palestras proféticas destinadas aos pais de alunos e aos professores. Já é uma realidade crianças de sete anos de idade ganharem um laptop para administrar as tarefas da semana, que incluem aulas de equitação com cavalos-marinhos, técnica de uso da espada samurai e leitura em braile com os dedos dos pés. Futuramente, veremos se essa abominável forma de educar gerou uma sociedade melhor ou se nos legou pessoas e profissionais que, um dia, foram crianças-frankstein.
CLÓVIS DA ROLT
Professor, Mestrando em Ciências Sociais pela Unisinos
Fonte: Zero Hora/Segunda/25/Junho/2007.
3 comentários:
Simplesmente...maravilhoso.Essa reflexão está diretamente relacionada com tudo que estamos discutindo.
Bom dia!
Ainda não lhe conheço pessoalmente mas vejo que pensamos da mesma maneira.Não é átoa que na minha prática executo um trabalho bem diferenciado,muitas vezes sendo avaliado por outras colegas como "trabalho de doido".A cada ano as crianças chegam com mais defasagens e com comprometimentos múltiplos.A ansiedade que até então era sentida na população de adultos,já faz algum tempo está na infância.Crianças agitadas,inseguras,ansiosas,agressivas são algumas caracteristicas encontradas cada vez mais na infância.Em paralelo a isso,observando pais ,vemos pessoas não diferentes disso e com um agravante,descompromissado muitas vezes com a formação estrutural de seus filhos ,deixando este papel cada dia mais para a escola.
Fazer um resgate da imaginação,do prazer e maneiras de brincar é realmente um desafio que tento resgatar.Tenho sempre conseguido, pelo menos em parte.Sei que, pelo menos no ano letivo em que estão comigo, eles voltam a ter direito a serem realmente crianças,provando assim que podemos ser mediadores em todas as áreas.Este resgate se nota no comportamento,na alegria presente,nos seus desempenhos.
Penso que as crianças são seres humanos como nós que precisam ser ouvidos com interesse e atenção,serem respeitados para aprenderem a respeitar,amados para amarem,valorizados para aprenderem a valorizar e muito ,mas muito estimulados no que tem de melhor....imaginação.
Todo esse papo é mui lindo. Mas, tenho lido algumas críticas e frases que ele tem escrito e vos digo! Pura depressão, teoria do fim do mundo... Sempre com pimenta e dor, desperta o lado negativo dos pensamentos alinhando o que devemos pensar de acordo com uma alma mal resolvida... Sempre tiramos conclusões do que vimos ou ouvimos, mas e o que está por trás? E o que não vemos? Globalização, Televeisão, Mobilização, escuridão!!! Delirio das massas!
Uffa
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